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Saíam os dois a correr pela rua. Desciam a ladeira até o chão tornar plano novamente, mas ainda com ladeira abaixo se os pés não parassem. Sabiam aonde iam correndo naquele desespero. Era um tal de esconderijo, um quartel general. Naquele terreno que ninguém entendia se era só um terreno, estacionamento; para eles era o suficiente saber que naquele lugar o mundo não existia e ninguém os via.
Eram nas tardes de fazer nada, nos longos dias de infância, que corriam. E no refúgio do mundo o que os escondia eram pés de pitanga. As mais vermelhas pitangas. Da cor da boca dela. No tom da bochecha dele.
O tempo era eterno debaixo daquelas pitangueiras. Sentia-se apenas o sabor das pitangas, conversas, risadas, brincadeiras. O sabor que os dias foram tirando deles. Os encontros vigiados pelas folhas verdes já não eram mais freqüentes, até que cessaram para sempre.
As pitangas não faziam mais parte deles, dele, dela. Talvez elas tenham se escondido pra não mais serem vistas. Esconderam o sabor e a cor. Mas não a cor da boca dela, nem o tom da bochecha dele.
Passadas auroras e crepúsculos, depois dos pés dela não pararem e descerem o resto da ladeira, enquanto os dele continuavam no ponto de partida, o tempo avisava que não andavam mais no mesmo passo. Um virou dois, e os mundos já não se correspondiam.
E nos andares dela, os dias quiseram assim. Hoje ela passa por uma pitangueira que fica a assistir os dias dela calada. Mas ultimamente tem olhado como quem chama e pede: “prova de minhas frutas e lembra dele”.
[20.06.2008]
Ficava a janela todos os dias. Coisa rara para garotos daquela idade.
Não. Ele não estava na época do namorico, faltava-lhe uns bons anos até lá. Também não havia grande movimento a que assistir.
A casa ficava de frente para uma praça. Mas tão pouco era o movimento da praça que chamava a atenção do menino.
Todas as manhãs, ao menor vestígios dos raios de sol, o cantar dos pássaros vinha acordar a vizinhança, e a praça, como um grande poleiro, abrigava o colorir das penas.
Eram os pássaros o fantástico que embalava o menino à janela. Passava os dias a admirar aquelas pequenas criaturas.
No impulso de um dia tentar possuir o que tanto o fascinava; como um gato pronto ao bote, com suas pequeninas mãos, foi ao rapto; e com o pássaro abrigado entre os dedos, tamanha era a alegria, da euforia fez-se a morte.
Apercebido de seu ato, o garoto mergulhado às lágrimas, correndo com o pássaro na mão, foi buscar conforto nos braços da mãe. Não podia suportar a dor:
- Mamãe, matei um passarinho!
[??.11.2006]
