“Gosto muito desse quadro.”
“É o ‘Almoço dos Barqueiros’. De Renoir. Faço um por ano. Há 20 anos. O mais difícil são os olhares. Às vezes tenho a impressão que mudam de propósito de humor assim que viro as costas.”
“Agora parecem felizes da vida.”
“E devem! Esse ano comeram coelho com cogumelos e teve bolinhos de geléia para as crianças.”
“Depois de tantos anos o único personagem que ainda não consegui captar é a moça com o copo de água. Ela está no centro e, no entanto, está fora.”
“Talvez seja diferente dos outros.”
“Em quê?”
“Não sei.”
“Quando era pequena não devia brincar muito com outras crianças. Talvez nunca.”
“Sabe a garota do copo de água?”
“Sei.”
“Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.”
“Em alguém do quadro?”
“Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.”
“Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes?”
“Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.”
“E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr em ordem?”
“Bom, melhor cuidar dos outros do que de um anão de jardim.”
“Acho que fui muito duro com a garota do copo de água. Me conta: o garoto com quem ela cruzou, eles se reviram?”
“Não. Eles não se interessam pelas mesmas coisas.”
“Sabe, sorte é como o Tour de France. Esperamos tanto, e passa tão rápido. Quando chega a hora, precisa saltar sem hesitar.”
“Ela está apaixonada por ele?”
“Está.”
“Acho que está na hora de ela assumir o risco.”
“Justamente, ela está pensando em um estratagema…”
“Ela gosta disso. De estratagemas.”
“Sim.”
“Na verdade ela é um pouco covarde. Acho que é por isso que não consigo captar seu olhar.”
“Então, minha querida Amelie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, então, com o tempo, seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então vá em frente, pelo amor de deus.”
*quase ‘O Fabuloso Destino de Tamie Karan’.